Lacan dedicou um seminário inteiro a Hamlet. A célebre hesitação não é fraqueza de caráter: é a posição de um sujeito capturado pelo desejo do Outro, num tempo que nunca é o seu.
Por que Hamlet adia? A pergunta atravessa séculos de crítica, e Lacan a reabre na chave do desejo. O príncipe não age porque seu desejo está, desde o início, hipotecado ao Outro: ao pai morto que ordena a vingança, à mãe cujo gozo o desnorteia, a um tempo que está, como ele diz, 'fora dos gonzos'.
Há em Hamlet a estrutura do luto. Lacan observa que ele só pode desejar plenamente diante do túmulo de Ofélia — é preciso que o objeto se perca de vez para que o desejo, enfim, retorne. O luto não é apenas tristeza: é o trabalho pelo qual o sujeito reencontra, na falta, a causa de seu desejo.
A tragédia mostra que querer não basta: é preciso assumir o ato no tempo do sujeito, e não no do Outro. A hesitação de Hamlet é o nome literário de uma questão clínica — a de saber se, e como, um sujeito pode passar do desejo do Outro ao seu próprio.
Temas
- literatura
- desejo
- luto
- ato




