Em Vertigo e Janela Indiscreta, o suspense não é truque narrativo — é a própria lógica do desejo. Hitchcock filma o olhar como aquilo que falta ao quadro: o objeto que causa, e nunca se alcança.
O suspense hitchcockiano não nasce do que se mostra, mas do que se subtrai. Em Vertigo, Scottie persegue uma mulher que é, desde o início, uma imagem fabricada para ele — e quando a reencontra, exige refazê-la traço a traço até a coincidência impossível. O que ele busca não é Madeleine, mas o objeto a: essa causa do desejo que só existe enquanto perdida.
Lacan via no olhar um dos nomes desse objeto. Janela Indiscreta faz do espectador um voyeur preso à própria poltrona, e devolve o olhar quando o assassino, enfim, encara a câmera. O cinema deixa de ser janela para o mundo e se torna a cena em que somos vistos por aquilo que olhamos.
Ler Hitchcock pela psicanálise é reconhecer que o medo, no suspense, é o medo do desejo: do que se quer sem poder querer, do que retorna quando se acreditava tê-lo enterrado. O objeto a não está na tela — está no intervalo entre o que vemos e o que, justamente, escapa.
Temas
- cinema
- olhar
- objeto a
- desejo




