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Cultura

A Laranja Mecânica e o gozo: violência, lei e o supereu

Otávio Belmonte ·

O filme de Kubrick não ilustra a violência — interroga a lei que a produz. Entre o tratamento Ludovico e o imperativo de gozar, Alex revela o avesso obsceno do supereu.

A Laranja Mecânica, de Kubrick, costuma ser lida como retrato da violência juvenil. A psicanálise desloca a leitura: o que o filme põe em cena é o gozo, esse mais-além do prazer que Freud já entrevia na compulsão à repetição e que Lacan situou como o avesso da lei.

O tratamento Ludovico, que condiciona Alex a sentir náusea diante da violência, é uma tentativa de extirpar o gozo pela via do reflexo. Mas ao suprimir a possibilidade do mal, suprime-se também a do ato ético — o filme mostra que uma bondade imposta não é bondade alguma. O supereu freudiano não ordena o bem: ordena o gozo, e quanto mais se obedece, mais ele exige.

Há ainda a música. A Nona de Beethoven, sublime e arrebatadora, é para Alex o suporte mesmo do gozo destrutivo — o belo não redime, faz par com o pior. É aí que o filme toca um real da clínica: a cultura não é o contrário da pulsão; ela é também um de seus disfarces mais elaborados.

Temas

  • cinema
  • gozo
  • supereu
  • lei

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